COVID-19 e a Logística da Vacinação - Synerhgon
R. São Vicente de Paulo, 650,Cj. 12 - Higienópolis - SP
(11) 3825-6751 / (11) 99607- 8855
synergia@synerhgon.com.br

COVID-19 e a Logística da Vacinação

Consultoria estratégica em gestão

COVID-19 e a Logística da Vacinação

Muito se fala dos desafios logísticos do atual esforço de imunização das populações em relação ao Corovavírus. Trataremos aqui de alguns aspectos relacionados a esses medicamentos, à situação mundial e, principalmente, às orientações existentes e às condicionantes para essa operação em nosso país.

As vacinas

Para estabelecer um cenário geral, o site COVID-19 vaccine tracker, desenvolvido pelo Centro de Vacinação da Escola Londrina de Higiene e Medicina Tropical dá conta de que existem (até 21/12/20) 63 vacinas nas várias etapas de testes clínicos, num universo de 287 candidatas.

Nos ateremos a algumas características das vacinas de alguma forma relacionadas com o Brasil:

AstraZeneca/Oxford:

  • Tipo: DNA carregado por Adenovírus
  • Eficácia 70% (62% a se considerar duas doses completas)
  • Temperatura para armazenamento: entre 2 a 8 ºC
  • Doses necessárias: 2 (uma com metade da concentração)
  • Aprovação: Em análise no Reino Unido
  • Brasil: Acordo com o Ministério da Saúde para a compra de 100 milhoes de doses (1º semeste de 2021).

Pfizer/BioNTech:

  • Tipo: mRNA transportado por lipossomo
  • Eficácia: 95%
  • Temperatura para armazenamento: -70 ºC
  • Doses necessárias: 2
  • Aprovação: Reino Unido, Bahrein, EUA, Canadá, México, Arábia Saudita, União Européia (emergencial); Suíça (definitivo)
  • Brasil: Memorando de entendimento para compra de 70 milhões de doses

Janssen/Johnson&Johnson

  • Tipo: DNA carregado por Adenovírus
  • Eficácia: sem informação (na fase 3)
  • Doses necessárias: 1
  • Aprovação: ainda não aprovada
  • Brasil: Memorando de entendimento para a compra de 38 milhões de doses

Sinovac/Instituto Butantan

  • Tipo: Vírus inativado
  • Eficácia: sem inforemação (na fase 3)
  • Temperatura para armazenamento: entre 2 a 8 ºC
  • Doses necessárias: 2
  • China (emergencial)
  • Aprovação: China (emergencial); Brasil (requerimento à ANVISA previsto para 23/12)
  • Brasil: Após idas e vindas, o Ministério da Saúde enviou memorando de entendimento com o governo de São Paulo, e é prevista a compra de 46 milhões de doses.

Barat Biotech:

  • Tipo: Vírus inativado
  • Eficácia: sem informação (na fase 3)
  • Temperatura para armazenamento: entre 2 a 8 ºC
  • Doses necessárias: 2
  • Aprovação: em análise pela agência indiana responsável
  • Brasil: Citada no Plano Nacional de Vacinação.

Moderna:

  • Tipo: mRNA transportado por lipossomo
  • Eficácia: 94,5%
  • Temperatura para armazenamento: -20 ºC, por seis meses
  • Doses necessárias: 2
  • Aprovação: Aprovada pela FDA (EUA)
  • Brasil: Citada no Plano Nacional de Vacinação.

Gamalyeya (Sputnik V):

  • Tipo: DNA carregado por Adenovírus
  • Eficácia: 92%
  • Temperatura para armazenamento: entre 2 a 8 ºC
  • Doses necessárias: 2
  • Aprovação: Rússia (emergencial)
  • Brasil: Citada no Plano Nacional de Vacinação.

Há ainda a adesão do Governo Federal, ao Instrumento de Acesso Global de Vacinas Covid-19 – Covax Facility (Instituto Bill e Melinda Gates), para a compra de 42 milhões de doses. No entanto, não existe ainda previsão de entrega desses imunizantes.

Campanhas no mundo

Neste momento, já há vacinas sendo utilizadas em certos países ainda que, em alguns casos, em caráter emergencial:

  • China (Sinovac, Sinopharm e CanSino);
  • Rússia (Sputnik V);
  • Reino Unido (Pfizer/BioNTech);
  • Emirados Árabes (Sinopharm);
  • EUA (Pfizer/BioNTech).

É previsto que, em 27/12, Portugal inicie a sua vacinação (Pfizer/BioNTech) e os EUA iniciem a imunização com a vacina da Moderna.

Aspectos Logísticos

No Brasil, o PLANO NACIONAL DE OPERACIONALIZAÇÃO DA VACINAÇÃO, apresentado em 16/12/20, oferece a programação de distribuição das vacinas que já têm acordo firmado e contam com previsão de entrega dos lotes, ou seja, as da AstraZeneca/Oxford e da Pfizer/BioNTech. As demais ou são apenas mencionadas.

É de destacar a característica exclusiva e, neste caso, complicadora para a operação logística, da temperatura necessária para se manter a estabilidade da vacina da Pfizer/BioNTech: -70 ºC.

Também é relevante aclarar que a OMS (Organização Mundial da Saúde) relata que até 50% dos medicamentos (não só imunizantes) são perdidos ao longo de sua cadeia logística. O plano de vacinação trazido a público estima uma perda operacional de 5% para a vacina da AstraZeneca/Oxford e de 10% para a da Pfizer/BioNTech, o que nos parece estar em consonância com os dados históricos do PNI (Programa Nacional de Imunizações).

Orientações técnicas

Em nosso país, o transporte de produtos biológicos, em especial as vacinas, é objeto do GUIA PARA A QUALIFICAÇÃO DE TRANSPORTE DOS PRODUTOS BIOLÓGICOS, da Anvisa. O guia não determina como o projeto logístico deve ser elaborado, atendo-se apenas do transporte. No entanto, serve de orientação aos operadores logísticos e à atuação dos órgãos de fiscalização.

Este documento preconiza que “medicamentos biológicos são, frequentemente, constituídos por moléculas proteicas altamente complexas, cuja atividade biológica é dependente da sua integridade estrutural. Tanto a instabilidade química quanto a física podem contribuir para uma perda de atividade”. São, portanto, produtos de extrema sensibilidade.

Instabilidades físicas podem ser evitadas com a seleção adequada dos equipamentos de transporte e armazenagem. Já para a manutenção de temperatura, esta deve ser monitorada durante toda a cadeia logística de distribuição. Para tanto, são necessários cuidados especiais com acondicionamento (embalagens e arrumação) e o uso de equipamentos adequados de medição. É evidente que desenho do transporte demanda cuidados adicionais, em relação à armazenagem.

Nesse particular, elencam-se os seguintes aspectos relevantes, constantes do guia:

  • Duração do processo;
  • Perfil de temperatura ambiente definido;
  • Localização e quantidade do material refrigerante;
  • Configuração da carga no sistema de transporte;
  • Localização dos equipamentos responsáveis por monitorar a temperatura;
  • Massas térmicas mínima e máxima.

Já em termos mais amplos, aplica-se o MANUAL DA REDE DE FRIO, este de responsabilidade do Ministério da Saúde e cujo objetivo é “estabelecer referencial teórico e operacional capaz de fomentar o mínimo de unidade de procedimentos, fundamental para garantir um dos aspectos mais importantes na qualidade e segurança dos imunobiológicos disponibilizados pelo PNI, desde o laboratório produtor até o momento em que o produto é ofertado à população brasileira”.

Aborda a Rede de Frio, que inclui a normatização, planejamento, avaliação e financiamento para a adequada manutenção da Cadeia de Frio, que é o processo logístico levado a efeito para a conservação dos imunobiológicos, desde o laboratório produtor até o usuário, incluindo as etapas de recebimento, armazenamento, distribuição e transporte.

O manual explana sobre assuntos como:

  • Aspectos técnicos físicos, químicos e biológicos dos imunizantes;
  • Variáveis determinantes no armazenamento dos imunobiológicos;
  • Processos de transporte internacional, nacional e regional / municipal;
  • Embasamento teórico sobre Termologia;
  • Tipos de refrigeração e de manutenção;
  • Sistemas de Qualidade;
  • Instrumentos de monitoramento da temperatura;
  • Equipamentos de refrigeração: seleção, aquisição e manutenção;
  • Equipamentos para suporte e de infraestrutura à refrigeração, EPI’s e insumos;
  • Boas práticas de armazenamento e conservação;
  • Gerenciamento de resíduos e noções de cadeia logística reversa;
  • Elaboração de projetos físicos e de instalações, planejamento de estoques, fluxo de pessoas e de produtos e organização de ambientes.

Conclusão

Como visto, o Brasil conta com um arcabouço técnico orientativo muito completo para que a distribuição das vacinas seja levada a bom termo.

No entanto, questões políticas, comerciais e dificuldades operacionais tendem a absorver esforços que poderiam ser direcionados exclusivamente ao atendimento da necessidade imediata da população, num momento crucial de suas vidas.

 

Mauricio Prieto – sócio diretor da Synerhgon

Este artigo foi originalmente publicado no site Modais em Foco